Quando o “não” vira violência contra a mulher

Published On: 12/02/2026 17:23

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Caso de jovem esfaqueada após recusar namoro reacende debate sobre cultura de posse e falhas na prevenção

Por Janna Ulhoa

A tentativa de feminicídio registrada em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, envolvendo uma jovem de 20 anos atacada dentro de casa após recusar um pedido de namoro, expõe uma realidade que o Brasil insiste em enfrentar apenas quando o crime já aconteceu.

Segundo informações divulgadas pelas autoridades, a estudante foi surpreendida e ferida com múltiplos golpes após dizer que não queria iniciar um relacionamento. O suspeito foi preso e o caso é investigado como tentativa de feminicídio. A vítima segue hospitalizada, em estado grave.

O episódio não é um fato isolado. Ele revela um padrão preocupante em que a recusa feminina ainda é interpretada por alguns como afronta, rejeição insuportável ou desafio à masculinidade. A consequência, em casos extremos, é a violência.

Especialistas apontam que crimes desse tipo geralmente são precedidos por comportamentos de controle, insistência excessiva e dificuldade de aceitar limites. São sinais frequentemente minimizados como demonstrações de interesse ou ciúme. Quando não são enfrentados no início, podem evoluir para agressões mais graves.

Apesar de o Brasil contar com legislação específica para proteger mulheres, como a Lei Maria da Penha e o enquadramento do feminicídio no Código Penal, a prevenção ainda enfrenta entraves. A aplicação efetiva das medidas protetivas, o monitoramento de agressores e a educação para relações baseadas no respeito continuam sendo desafios estruturais.

O caso da jovem de 20 anos reacende a discussão sobre a necessidade de políticas públicas permanentes e não apenas respostas emergenciais após cada episódio de grande repercussão. A violência de gênero não começa no momento da agressão física. Ela se constrói em ambientes onde a autonomia feminina ainda não é plenamente reconhecida.

Dizer não é um direito. Recusar um relacionamento é exercício de liberdade. Quando essa escolha é respondida com violência, o problema ultrapassa o âmbito individual e revela uma falha coletiva.

Enquanto a sociedade tratar esses casos como exceções e não como reflexo de uma cultura que precisa ser transformada, novas ocorrências continuarão surgindo. A pergunta que permanece é se a mudança virá pela prevenção ou se continuará sendo motivada apenas pela tragédia.

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