Irã nas ruas | Quando o silêncio deixa de funcionar

Published On: 10/01/2026 15:40

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A repressão tenta conter a crise, mas os protestos expõem fissuras profundas no regime

Os protestos no Irã não são um raio em céu azul. São o eco acumulado de anos de frustração econômica, restrições políticas e uma juventude que já não aceita viver sob promessas adiadas. O estopim foi o bolso inflação alta, moeda desvalorizada, custo de vida fora de controle, mas a pauta rapidamente ganhou corpo e virou questionamento de poder.

A resposta do Estado segue o roteiro conhecido: repressão dura, prisões em massa e o velho expediente do apagão digital. Cortar a internet virou tentativa de conter ideias como se fossem vírus. Não funciona. No máximo, atrasa. Quando o descontentamento chega a esse nível, ele encontra outros caminhos boca a boca, ruas, coragem coletiva.

O governo insiste em tratar a mobilização como conspiração externa. É um argumento conveniente, mas raso. Nenhuma potência estrangeira cria inflação, desemprego e falta de perspectiva sozinha. Esses problemas nascem dentro de casa. A retórica de ameaça externa pode mobilizar a base fiel, mas não responde às demandas de quem protesta.

Há também o peso simbólico. Quando manifestantes passam a questionar diretamente a liderança suprema, como a de Ali Khamenei, o recado é claro: não se trata apenas de ajuste econômico, mas de legitimidade política. Isso muda o jogo e eleva o risco de escalada.

O dilema do regime é simples e cruel. Reprimir pode conter o presente, mas alimenta o futuro da crise. Dialogar exige ceder, e ceder é visto como fraqueza. Enquanto isso, a população paga a conta com medo, luto e incerteza.

O Irã vive um momento em que o silêncio deixou de ser opção. A pergunta não é se haverá novas ondas de protesto, mas quando e com que intensidade. Sistemas fechados costumam parecer estáveis… até o dia em que não são mais.

Foto: Revista Oeste

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