EUA e Venezuela| Quando a crise vira rotina diplomática

Published On: 10/01/2026 15:37

Compartilhar

Entre sanções, petróleo e discursos duros, o impasse se repete e cobra preço alto da região

Por Janna Machado

A relação entre Estados Unidos e Venezuela voltou ao centro do noticiário internacional sob o rótulo fácil de “caos”. O termo chama atenção, mas esconde o essencial: não se trata de um surto repentino, e sim de um conflito prolongado, marcado por sanções, disputas de poder e interesses energéticos que se retroalimentam há anos.

De um lado, Washington mantém pressão política e econômica, usando sanções como ferramenta para forçar mudanças internas em Caracas. Do outro, o governo de Nicolás Maduro responde com discurso de soberania ameaçada e resistência externa, enquanto enfrenta uma crise econômica profunda e uma emergência social que empurrou milhões de venezuelanos para fora do país.

O problema é que essa queda de braço raramente produz vencedores claros. As sanções atingem o coração da economia venezuelana, especialmente o setor de petróleo, mas também pesam diretamente sobre a população, que convive com inflação, escassez e serviços públicos frágeis. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos lidam com efeitos colaterais que vão da instabilidade regional ao aumento dos fluxos migratórios em suas fronteiras.

Há ainda um componente incômodo: a seletividade moral. Democracia, direitos humanos e legalidade internacional entram no discurso conforme a conveniência geopolítica do momento. O resultado é um jogo previsível, em que cada nova crise parece inédita, mas segue o mesmo roteiro de sempre.

O chamado “caos” não nasce apenas em Caracas nem apenas em Washington. Ele é produzido na insistência em soluções de força, na diplomacia truncada e na incapacidade de construir saídas multilaterais reais. Enquanto isso, a América Latina observa, absorve impactos e paga a conta.

No fim, o impasse entre EUA e Venezuela é menos sobre dois governos e mais sobre um modelo de confronto que já provou seus limites. Persistir nele não resolve a crise apenas a administra, mantendo o problema vivo e conveniente para discursos internos, mas devastador para quem vive a realidade fora dos palácios do poder.

Faça um comentário